Acompanho, com interesse, o julgamento da Ação Penal 470 pelo plenário do Superior Tribunal Federal – o conhecido escândalo do Mensalão. Interesse de cidadão esperançoso de que os meandros políticos e financeiros enraizados em nossa cultura possam, após o veredicto final dos eminentes magistrados, dar uma demonstração de que o país amadureceu democraticamente não tolerando mais a imagem de ser encarado como uma república que guarda resquícios dos tempos dos coronéis.

Não há como se contestar que a tarefa dos juízes que compõem a Corte Suprema é árdua senão complexa. Nomeados, todos, pelos três últimos presidentes da República e aprovados pela maioria absoluta do Senado Federal, cinco o foram pelo ex-presidente Lula e dois pela presidente Dilma Rousseff. Por conseguinte, apenas três dos magistrados foram indicados por autoridades máximas não pertencentes ao atual regime no poder. As nomeações são irreversíveis e os ocupantes das cadeiras só as deixarão por morte ou aposentadoria compulsória aos setenta anos de idade.

Imagine-se a natural disputa, intramuros, pela indicação de nomes para o cargo de maior projeção, e de realização pessoal, no Poder Judiciário do país. Como qualquer recomendação para preenchimento de cargos na alta direção de empresas, erudição e reconhecida competência são fatores insuficientes para ocupar o primeiro lugar no podium. E aí reside a sutileza de indicações dessa natureza. Não há como se desconsiderar a condição humana, influenciada que é por fatores intrínsecos, de gratidão e, não raro, alinhamento com princípios e ideologias de empresas ou governos. O julgamento do Mensalão se reveste, portanto, de peculiaridades que tornam o processo de apreciação e decisão por parte dos togados a considerar questões do foro íntimo que podem conflitar com aquelas que os levaram à condição presente.

O processo, tendo como réus figuras políticas de alta representatividade e pertencentes ao partido do governo estabelecido poderia levar vossas excelências, indicadas pelos governos atual e anterior, a considerar situações de conforto. Mas para exaltação do egrégio STF, o que temos atentamente observado durante os trabalhos iniciais do julgamento em andamento é que os juízes têm se conduzido com exemplar postura, mediante análises técnicas bem fundamentadas e votos que não deixam margem a qualquer dúvida sobre seus posicionamentos.

Os que inicialmente questionaram a postura a ser adotada por aquela Corte frente à condição de julgar réus singulares estão, agora, a comprovar o comprometimento dos eminentes juízes para com a justiça. E nada mais.

A Justiça brasileira merece nossa reverência.