Vivemos em um mundo cada vez mais agitado, acelerado, sempre correndo de um lado para o outro, fazendo uso do celular, ou até mesmo mais de um, 24 horas por dia. Loucura, “madness”, “frénésie”, “verrücktheit”, “pazzia”. Simplificando, é assim que se expressam os ingleses, franceses, alemães, italianos para extravasar o mesmo sentimento.

Não importa o lugar da aldeia global e o “Bombril tecnológico” (celular) estará presente. Temos submergido durante as últimas duas décadas na tecnologia de ponta, indispensável às áreas do conhecimento humano, sempre atualizada em velocidade vapt-vupt.

A democratização do acesso à informação é uma das maiores conquistas na história da humanidade. A dificuldade maior, no entanto, reside em sua incapacidade de digerir o volume de dados disponíveis em tempo real e se aprofundar em tudo que se coloca à sua disposição. A impressão de que a superficialidade vem ocupando espaços vitais em nossas vidas, não por vontade própria, mas por absoluta falta de tempo, não parece ser vã.

Um dos fenômenos relevantes é o crescente descarte de bens de consumo. Programados para uma vida útil curta, resultado da duvidosa qualidade dos insumos utilizados em sua produção, introduzem no mercado apenas tecnologia de penúltima geração, não de última, já disponível nos laboratórios. As indústrias nos oferecem produtos “atualizados”, glamurizados por doses homeopáticas de modernidade. E como o anseio desenfreado de consumir e desfrutar não é pequeno para que possam se apresentar aos semelhantes com o mais novo, vaidosamente, a roda-viva gira alucinada.

A imagem que me persegue é aquela de que estamos dispondo de tempo menor para usufruirmos do potencial de tudo que possuímos; e a referência não é apenas material. Estamos perdendo a noção de maturação do tempo, curtir, degustar, ansiar com expectativa saudável por momentos e porvires. Como recuperar a capacidade de sonhar através da espera, enfrentar o desconhecido – agora desnudado em segundos pelo Google –, desnudar a surpresa tão ansiosamente aguardada, permanecer conosco mesmos ao som do silêncio raramente encontrado, nos afastar do coletivo por instantes e tentar recuperar a individualidade? A resposta, por certo, não é unânime.

O fato é que vivemos queimando etapas desde cedo enfrentando a competição desmedida em tudo até a maratona pela realização profissional. Não creio que sejamos capazes de desacelerar diante da frenética realidade. A menos que sejamos obrigados pela mãe natureza a rever conceitos e preceitos deixando de olhar para nosso próprio umbigo, valorizando o que realmente tem valor. Talvez valha a pena meditar sobre isto.