Um ano atrás, ao ser exilada, me despedi de vocês com o coração apertado, depois de ser arrancada das entranhas da terra onde vivi por mais de uma década. Se não se recorda, ou não teve a oportunidade de ler meu lamento então, alegaram que eu era uma ameaça a pessoas, construção estéril e máquinas opulentas. Arrancada, deixando raízes laceradas e expostas para dar lugar ao asfalto negro e criação de espaço amplo, inútil, sem qualquer natureza presente, fui degredada após julgamento por tribunal de exceção.

Puxa, logo eu, que por tanto tempo enriqueci a paisagem de quem chegava ou partia, deslumbrei – para olhares atentos – com a exuberância de minhas flores, dei sombra a quem precisou; tudo sem nunca exigir nada em troca. Como simples vegetal que sou não mereci, por parte daqueles que se dizem e julgam racionais, um mínimo de respeito. Respeito que muitos animais, colegas de outro reino, não encontram também por parte de tantos dotados com um pouco mais de raciocínio – mas não de bom senso – eis que a racionalidade não é um privilégio do homem.

Transformaram-me em um monolito!

Abandonado em lugar estranho, sou hoje um tronco seco, monumento frio, descolorado, inerte, ignorado por todos ou quase todos, quem sabe. O vazio deixado por mim permanece intocado como a lembrar que naquele pedacinho de asfalto está faltando ela, a frondosa árvore cuja permanência foi defendida por um pequeno grupo de seres conscientes, responsáveis e sensíveis. Mas lembrada, também, que foi destronada por outro, menor, pequeno em sua essência, magnânimo em sua autoridade. A lei dos homens é implacável, principalmente quando aplicada aos mais fracos. Ou aos alijados, sem nenhum poder.

O tempo é remédio para todos, ou quase todos os males. Já faço parte de uma nova paisagem, ignorada, sem história, impossibilitada de contribuir para a razão de minha existência. Acredite que este não é mais um lamento. Como tudo na vida, tenho consciência que existe sempre um principio e um fim. O meu foi abreviado, não por um raio que me tirasse o vigor ou uma doença que me exaurisse as forças.

Mas, quis a mãe natureza em sua sabedoria que um fio de minhas laceradas raízes, após esforço hercúleo, brotasse próxima ao meu exaurido tronco.  Assim, o simples fato de estar sendo lembrada agora me faz sentir viva, apesar da distância que, por ora, separa nossos mundos.

Um dia nos reencontraremos. Até lá!

Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.(Albert Einstein)