Guardadas as fantasias, “aquelas que nos permitiram conviver temporariamente com a irrealidade”, voltamos à realidade deixando para trás o mundo da fantasia. O Carnaval já é passado.

A renúncia do Papa Bento XVI, a partir do fim do mês, tem ocupado o tempo de articulistas e analistas num infindável caleidoscópio de visões sobre o futuro da igreja católica. Consciente de que vivemos – faz tempo – em tempos outros, com a ciência desvendando e comprovando a materialidade da vida, Sua Santidade clama por uma reformulação dentro da Instituição. Mas respeitando a individualidade, de braços dados com a realidade do mundo em que estamos vivemos.

O assunto religião é delicado, pois incorpora em seu bojo uma pluralidade de dogmas; muitos, inclusive, responsáveis por guerras, isolamentos, explicitando a fragilidade e fraquezas do ser humano. Dentro de minha limitada capacidade de compreensão, esbarro em situações conflitantes por entender que ao nascer não escolhemos seja lá o que for. Éramos, então, livres!

Liberdade logo perdida, eis que durante nosso desenvolvimento fomos ensinados e direcionados, sob a batuta de pais, professores, mentores, religiosos a seguir caminhos predefinidos. Como se colocados em um bonde sobre trilhos, não nos foi permitido – até que estivéssemos devidamente “configurados” – optar por algo distinto de tudo que nos foi ensinado. Mais tarde, muito tarde por vezes, pretendemos assumir as rédeas de nossas vidas, mas nem sempre com sucesso.

Talvez a religião seja uma das poucas crenças que permita ao ser humano rever seu posicionamento antes da hora final. Desde sempre o homem sente a necessidade de reverenciar, na busca de uma aproximação com um ente maior que possa oferecer-lhe conforto, proteção e esperança em momentos diversos. Apesar disso, não são poucos os agnósticos.

O mais intrigante é que existem inúmeras crenças e doutrinas, tão díspares entre si, mas que pregam um mesmo fim, qual seja, a trilha do bom caminho em vida, difundindo conceitos honestos que permitam ao homem viver melhor consigo mesmo. Não é menos verdade, contudo, que os ensinamentos e sua forma de execução são, por vezes, distorcidos em sua essência pois, afinal, somos seres humanos ensinados, imperfeitos, com falhas de formação, ambiciosos e egoístas.

Religiosidade vem do latim “religare”, que significa religar o céu e a terra, religar o que deixou de ser ligado. São dezenas as opções procuradas e inúmeros os fatores pessoais que levam alguém a buscar a ligação. Não existe fórmula ensinada nem experiência alheia que possa nos indicar o espaço a percorrer.

Somos singulares. Assim, é preciso, primeiro, acreditar.