As definições de amigo são inúmeras e procuram refletir um estado de espírito em relação ao outro. Trata-se de um sentimento consolidado com o tempo e, quando verdadeiro, pode perdurar por toda uma vida, independendo de variáveis e circunstâncias diversas.

A amizade mais conhecida e reconhecida é aquela entre o homem e os animais, notadamente os cães. Sua fidelidade – a dos cães – ultrapassa qualquer fenômeno, sendo marcada por eventos ocorridos até mesmo após a morte de seus donos. Qualquer animal pode se afeiçoar a um humano desde que preenchidas óbvias premissas que partem do âmago do ser. Não são raros os relacionamentos afetivos até entre feras e homens, fenômeno, também, incompreendido pelos menos atentos à realidade da vida.

A amizade, sentimento de estima ou solidariedade entre pessoas e animais, está permanentemente sob o crivo das ações e reações por atos e omissões. A insensibilidade e egoísmo humanos, por vezes, podem comprometer amizades que se deixam corromper ao menor desvio nem sempre intencional. Já os animais, são mais tolerantes e compreensivos com as reações humanas, reações impensadas deflagradas em momentos de raiva ou angústia. Parece não existir rancor por parte dos “irracionais” após deslizes sem grande importância no comportamento de nossa espécie. Sua capacidade de perdoar e abanar o rabinho, passado o momento de desvio, toca o mais insensível dos corações.

Talvez por não possuirmos rabinhos… nossa condescendência em relação ao outro seja pequena ou nenhuma. É crescente o número de pessoas que adotam os caninos por diversas razões sabidas: companhia, socialização de crianças, proteção do lar, alegria de conviver com aquele que nada cobra, muito oferece e jamais, jamais cometerá um ato que decepcionará seu dono ou dona. Absolutamente dependentes, sua fidelidade – a conhecida fidelidade canina – é difícil de ser explicada. Irracionais, segundo consta, possuem características inatas que vão desde a índole da raça ao instinto de preservação daqueles que os adotam. Os cães-guia, treinados como anjos da guarda para proteger e orientar pessoas com deficiências visuais são uma extraordinária revelação desse mundo que os humanos consideram animal.

E ainda assim, o dicionário, aquele que apresenta os significados de palavras de uma língua, define como cachorro também, em sentido figurado, pessoa inescrupulosa, sem dignidade. Expressão cunhada pela sensibilidade humana. Humana? Mas quem sabe um dia, aqueles que falam com o olhar e se expressam com o rabinho abanando poderão vir a nos adotar em um mundo novo. Quem sabe.

Au, au, au prá você.