O assunto é polêmico, causando embates entre o comércio de olho nos lucros, amantes já ensurdecidos pelo barulho crescente e a sociedade sensível aos danos consequentes. Refiro-me aos rojões, morteiros e afins utilizados, principalmente, em celebrações políticas, jogos de futebol, “viradas” de fim de ano.

Para inconformismo de expressiva parte da população, este será um doloroso ano cheio de tudo que foi dito acima: eleições, comícios políticos, jogos da Copa do Mundo. E até mesmo, quem sabe, de manifestações populares.

A julgar-se pela experiência vivida ano após ano, o uso e abuso dos artefatos estimulados por muitos, (imprensa inclusive, via ampla divulgação sem qualquer restrição), se constitui – a meu ver – em reprovável agressão ao direito e respeito ao cidadão. E como exemplo cito a euforia de um repórter da televisão na véspera do ano-novo: “o som já está pronto para fazer tremer a Avenida Paulista”. Imbecilidade patrocinada. É como se estivessem todos em pleno deserto! E quanto aos moradores do bairro e bairros vizinhos, os idosos, os doentes acamados em hospitais, os animais de estimação? Como ficam? Quem os protege? Sem qualquer opção são, ditatorialmente, vergonhosamente, forçados a se submeter aos interesses de não poucos.

Temos – todos – direito ao silêncio, onde quer que estejamos. Sempre! Mas a verdade é quem ninguém, ou quase ninguém, se importa com o desconforto causado pelo barulho. E daí? Não nos faltam leis municipais, estaduais e federais legislando sobre o tema. E daí? Artigo para inglês ver? Não me parece possível que o desrespeito pelo outro, ser humano igual a você, tenha atingido tal grau de desprezo. Em que país estamos vivendo?

O triste episódio que tirou a vida do cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago de Andrade, semana passada, talvez traga à tona as inúmeras petições públicas propondo à Câmara dos Deputados a criação de projeto de lei que proíba a produção e comercialização de “fogos, bombas, bombinhas, morteiros, rojões, e derivados explosivos de pólvora” em todo o território brasileiro; e mais, que se considere crime a utilização banal dos produtos citados acima em área de povoação residencial, nas proximidades de escolas e hospitais. A pergunta é: teriam vossas excelências coragem de ferir interesses comerciais e financeiros vultosos e, ainda, resistir ao apelo de faturar algo a mais por acordos?

Só me resta lamentar pelas vítimas do passado, pelos animais racionais sem defesa e os ditos irracionais sem qualquer culpa.

* Este texto está protegido pela Lei nº 9.610/98 *