Pesquisa realizada pelo Datafolha revela que menos de 50% das pessoas entrevistadas apoiam a realização da Copa do Mundo no Brasil. Essa percepção vem despencando desde o momento em que, no ano 2007, o Brasil foi escolhido pela entidade máxima do futebol mundial para sediar o torneio.

O país dispôs de seis anos para sanar deficiências gritantes, como estádios fora do padrão FIFA, encaminhar soluções para equilibrar a precária infraestrutura disponível visando consolidar a mobilidade urbana, dotar e modernizar aeroportos que sequer atendem às necessidades domésticas de hoje. O tempo não foi suficiente para que um planejamento eficiente fosse feito, muito do pensado fosse planejado e muito do planejado saísse do papel.

O estouro nos orçamentos – nem todos conhecidos – para atender às exigências da dona da Copa, a FIFA, se revelam assustadores para quem acompanha as agruras econômicas pelas quais passa o país. Como exemplo gritante, a obra mais cara da Copa do Mundo de 2014 orçada em R$ 1,610 bilhão em 2010, a construção da TransCarioca – corredor de ônibus que ligará o Aeroporto do Galeão, no Rio, à Barra da Tijuca – já custa hoje cerca de R$ 2,206 bilhões. E poderá não estar pronta a tempo para o torneio.

Não somos um país que prima pela organização, cumprimento de metas e respeito a cronogramas com eficiência. Muito pelo contrário. Orgulhamo-nos do “jeitinho brasileiro” de tratar assuntos sérios, relaxadamente, quando atrasos e desrespeito a compromissos assumidos são aceitos como normais. Faz parte de nossa cultura. A excessiva intervenção do Estado na atividade econômica aliada à corrupção no meio político compromete a eficácia de nosso desenvolvimento servindo como discutível modelo para as gerações em formação. A organização para realização da Copa no Brasil espelha essa realidade.

Somos conhecidos e reconhecidos pelo mundo como o país do futebol, do carnaval, das mulatas, das belezas naturais. Mas projetamos, também, uma imagem que não nos deixa orgulhosos nos campos da segurança, educação, saúde pública.

O resultado final dos jogos da Copa poderá nos trazer euforia momentânea – caso venhamos a ser campeões – fazendo-nos esquecer dos caminhos tortuosos que nos levaram até lá.  (De minha parte, torço por aquela que já foi “canarinho”, campeã cinco vezes com todos os méritos, demonstração de talento inato). Mas depois teremos que sofrer as consequências dos desmandos cometidos.

Assim, só nos resta pagar (literalmente) para assistir ao megaevento (mais comercial que esportivo) e aguardar os acontecimentos de dedos cruzados.

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