Menos de 24 horas depois do acidente com o avião que vitimou o candidato a presidência da República, Eduardo Campos, na semana passada, a imprensa noticiava que os marqueteiros de Dilma e Aécio já se preparavam para enfrentar Marina da Silva na disputa. Naquele momento a candidata à vice-presidência pelo PSB, guardando luto, dignamente se abstivera de qualquer manifestação sobre o assunto.

Além do ex-governador de Pernambuco, a tragédia ceifou também as vidas de Pedrinho Valadares, colaborador muito próximo a Campos, do assessor de imprensa Carlos Augusto Leal Filho, do fotógrafo oficial Alexandre Severo, do cinegrafista Marcelo Lyra e dos pilotos Marcos Martins e Geraldo Cunha.

Durante as cerimônias funerais dos vitimados, a imprensa televisiva – afoita e avidamente – deu início a programações políticas com painéis e debates sobre o futuro político do país considerando a indicação de Marina, agora como presidenciável, para representar o partido de Eduardo Campos. No domingo passado – com nenhum respeito e enquanto acontecia o funeral do ex-governador de Pernambuco – a Globo News já estava no ar com o programa Painel discutindo com três cientistas políticos os prognósticos para as eleições de outubro. Sem maiores comentários!

Os acontecimentos, surpreendentes, poderiam dar um novo colorido às urnas renovando a esperança de muitos por uma mudança nos destinos do país, que vem capengando economicamente, mirando horizontes sombrios – a julgar-se pelas análises de especialistas da área.

Mas temos um congresso comprometido, uma lei da ficha limpa que não é para valer – com inúmeros candidatos sofrendo processos judiciais de toda ordem, mas ainda assim concorrendo – um sem número de parlamentares em idêntica situação processual, um ex-governador do Distrito Federal (José Roberto Arruda, preso e condenado por corrupção) seguindo na frente da disputa por lá com 35% das intenções de voto, mesmo com sua candidatura cassada pela justiça eleitoral. São exemplos que não deixam – infelizmente – dúvidas quanto ao nível a que chegamos na política brasileira e que deixaria Rui Barbosa ainda mais revoltado com a omissão e conivência dos poderes republicanos dos dias de hoje.

Não é improvável que venhamos a assistir, neste próximo mês e meio, a embates proibidos para menores. Como cidadão comprometido com a democracia gostaria de poder assistir, no entanto, a conteúdos programáticos desprovidos de insinuações e promessas demagógicas. Seria uma lição de civismo a jovens descrentes. Mas estaríamos nós suficientemente educados para dar o exemplo? É pagar para ver.