Quem tem medo deDepois de encerrada a votação no último domingo, fui assaltado por um sentimento de frustração inusitado. O número de abstenções, votos nulos e brancos, atingiu a marca de 37 milhões. Eram cidadãos aptos a votar conscientemente (27% do total), mas que não o fizeram e poderiam ter feito a diferença.
 
Mas números são números e economistas, cientistas políticos e analistas, gostam de fazer contas. Salvo erro na aritmética, o percentual de brasileiros que não votaram na candidata vencedora do pleito foi de expressivos 62%. Não fosse o voto obrigatório – aberração maior de nosso sistema eleitoral – e esse número seria, possivelmente, ainda maior. Significa dizer que, realmente, apenas 38% dos eleitores elegeram a primeira colocada. E agora, qual a leitura a ser feita?
 
Ayn Rand, filósofa, escritora, dramaturga, nascida na Rússia, cidadã norte-americana, falecida em 1982, assim se manifestou, em 1920, sobre a “ineptocracia”: “Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”.
 
O sistema político-eleitoral que aí está terá que se adequar à realidade atual para que uma eleição possa ter como resultado não apenas números representativos de vencedores e vencidos. O recado dado em 26 de outubro passado pode ser visto cristalinamente ou, como preferem alguns, miopicamente. Espero que o alerta feito por Ayn Rand no início do século passado, mas tão atual, não se materialize por aqui e que nossa sociedade não esteja, ainda, condenada.
 
Mas, pensando nas tão alardeadas mudanças, quem levou o troféu já se manifestou, na primeira hora, colocando a reforma política como prioridade absoluta. Sugere a eleita que se faça um plebiscito, talvez esquecendo que, em 9 julho de 2013, o Congresso Nacional já se recusara a aprovar proposta igual. E mais: já no “dia seguinte” (segunda-feira, 27), o presidente do Congresso – Renan Calheiros (PMDB-AL), assessor de Fernando Collor, então candidato à presidência em 1989 – aliado do governo, sinalizou ser taxativamente contrário à medida.
 
 Tudo como dantes no quartel de Abrantes. Estaria Ayn Rand coberta de razão?