O Dia D da aposentadoriaO fim da atividade profissional, com a aposentadoria, chega mediante aviso prévio, aguardado por tantos com ansiedade e expectativa. Imaginam muitos que é chegado o dia da redenção, não da rendição, fruto do empenho e esforço dedicados por anos a fio à luta pela sobrevivência. Afinal, depois de décadas de trabalho, o tão sonhado momento bate à porta – com dia e hora marcada – como se o seu portador estivesse a receber uma carta de alforria.

Os que já chegaram lá – e viveram a transmutação – foram submetidos a experiências diversas a partir do “dia seguinte”. Muitos imaginaram estar preparados para enfrentar a nova vida com planos, pretensões e intenções longamente arquitetados. O percurso – desde então até a reta de chegada – sempre oferece aos mais abonados o conforto de realizar sonhos que só o ócio saudável permite: viagens, executar e desfrutar, sem qualquer compromisso, de atividades por puro prazer, dedicar-se a uma nova profissão, corrigindo rumos impossíveis de serem atingidos pelos compromissos financeiros e econômicos assumidos ao longo da vida.

Em tempos bicudos e incertos como os que ora vivemos, a imensa massa da população se vê – no entanto – comprimida por aposentadorias degradantes. Sem opção, só lhes resta prosseguir na luta, no trabalho continuado pela subsistência, privados que são – por um sistema injusto – do merecido descanso. É o que nos faz rememorar a vida que passaram a ter os escravos imediatamente após a abolição da escravatura no Brasil.

Historiadores nos dão conta que “… sem acesso a terra e sem qualquer tipo de indenização por tanto tempo de trabalhos forçados, geralmente analfabetos, vítimas de todo tipo de preconceito, muitos ex-escravos…”. Pouco mudou desde então, apesar dos avanços sociais.

Possuímos um sistema de seguridade social obsoleto, perverso, politizado, que desemboca – as mais das vezes – em aposentadorias de sobrevivência mínima, se tanto. A transposição de atividade contínua durante decênios para inatividade abrupta, do dia para noite, não é assimilada com facilidade por contingentes expressivos da sociedade, sejam eles abonados ou remediados. Discute-se pouco, ou nada, sobre como se encarar o fim de uma das fases mais importantes da vida de qualquer um, sem traumas e com realismo.

Aproveito a oportunidade de deixar aqui, para reflexão, a ideia de considerar-se a criação de cursos, palestras e oficinas, contínuos visando orientar e preparar – saudavelmente – aqueles que vislumbram o “Dia D” da aposentadoria desprevenidos. A ponderar!  

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