NickJá tivemos a companhia de mais de um cão em nossa família. O atual, que de fato nem nosso é, tem-nos ensinado muito – como, aliás, é típico desse animal. Nicholas, nome do digníssimo, veio para nossa casa já com dez anos – vindo de minha cunhada – que ao se mudar para um apartamento viu-se na contingência de “transferi-lo” por falta de opção.

Há cerca de um ano, cursando o 12º de sua existência, simplesmente Nick (para os íntimos…) começou a apresentar sinais de visão perturbada em processo que se acelerou com velocidade incomum e o deixou completamente cego. Alie-se ao quadro o fato de ir ficando, também, progressivamente surdo. Se a chegada de um animal à casa muda a rotina diária de qualquer família imagine-se quando ocorre algo do gênero. Estou certo de que muitos leitores conhecem alguém que se encontra na mesma situação ou, até mesmo, esteja vivendo quadro idêntico neste momento.

O lado sombrio desta história é que, apesar de o veterinário afirmar que um animal nestas condições não sofre, eis que sua “adaptação” transcorre sem traumas, o fato é que nós, “pais” do Nick, sofremos!!! Permanece impressa em nossa memória, indelevelmente, a imagem daquele cão alegre, correndo pelo jardim, brincando de “apanha osso”, atendendo aos assobios, aprontando apesar da idade. Hoje, perdido, sem rumo, trombando em móveis, confiando apenas em seu faro – já não tão apurado – com dificuldade de encontrar até seu prato de comida, não raro se posta contra a parede enquanto o chamamos de outro local. Difícil!

O lado reconfortante e belo, dentro do contexto, – que como tudo na vida possui verso e anverso – é que antes dos problemas de saúde, e pelo fato de viver dentro de casa, Nick dava sempre sinais que queria “sair” para atender às suas necessidades fisiológicas. Diante do novo quadro, aprendemos que sua maneira de nos “dizer que está na hora” é deitar-se em frente à porta e aguardar até que alguém o note e a dita seja aberta. Nem sempre, como se pode imaginar, estamos atentos à presença dele. E mesmo diante dessa nova condição (já não tão nova), jamais Nick se permitiu “aliviar” dentro de casa – que não é pequena – por mais “apertado” que estivesse. Uma verdadeira lição.

Que lição? A do exercício da paciência e da confiança irrestrita naqueles que dele cuidam dia e noite! Nick sabe, com a mais absoluta segurança, que jamais será esquecido, deixado de lado, ignorado. Por mais difícil que seja seu momento, seja de fome, de sede, de retornar para sua cama, sempre haverá alguém para atendê-lo.

Conhecemos, infelizmente, casos de filhos que largam seus pais entregues à própria sorte quando mais deles precisam em idade avançada. São considerados seres humanos pela sociedade… dos humanos. A sociedade dos animais avançou no tempo e não raro tomamos conhecimento de animais de espécie diferente cuidando uns dos outros. Talvez seja porque não tenham a capacidade de falar, mas apenas expressar – a seu modo – um sentimento… animal!

Obrigado Nick Nora: pelos ensinamentos, companhia, amor incondicional, por existir. À minha cunhada: obrigado por nos oferecer a oportunidade de vivermos mais esta experiência que tanto nos faz ponderar a respeito da vida como ela é.

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