Preservemos a democraciaComo cidadão brasileiro, não me orgulho nem me regozijo com o que venho assistindo diariamente pela televisão e lendo na imprensa escrita. Depois de aberta a caixa preta do governo Dilma, em janeiro em 2015, o que temos visto é uma lamentável sucessão de episódios grotescos uns, traumatizantes outros.

Ruy Barbosa, – expoente como jurista, político, diplomata, escritor, filólogo e orador – para quem não se recorda das aulas de História do Brasil, a “Águia de Haia”, é sempre lembrado por sua máxima “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.” Atualíssima!

Constrange-me constatar que movimentos chamados sociais, como MST e MTST, sindicatos e congêneres, não se levantam contra os responsáveis pelo estado de desamparo – para se dizer o mínimo – em que se encontra este país. Amargando um PIB negativo, em 2015, de -3,8% e projeção do mesmo de -3,66% para este ano, o país encara, impotente, a inédita cifra de mais de 10 milhões de brasileiros sem emprego. Tenta sobreviver a uma inflação de mais de 10% nos últimos doze meses, taxa básica de juros em 14.25% ao ano – das maiores do mundo – dívida pública de 2,887 trilhões de reais. Responsabilizar-se a quem?

Parece-me incoerente que se possa defender a manutenção desse “status quo” diante de tanto sofrimento socioeconômico pelo qual passa a população brasileira. Incoerentemente, são justamente os que menos tem, os mais desamparados, os mais sem perspectiva, que sofrem mais.

Tem nos faltado maturidade política para evitarmos colocar como governantes e legisladores nomes distintos dos que hoje estão instalados em Brasília e Estados, salvo honrosas e modestíssimas exceções. Estamos a conviver com “Excelências” que se comportam como colegiais juvenis, indisciplinados em sala de aula, ancorados em suas prerrogativas constitucionais.

Procuro ser otimista e disposto a subir em um palanque virtual clamando aos movimentos sociais, parlamentares, instituições jurídicas, sociedade para, unidos, buscarmos o caminho que nos permita – não sem enorme sacrifício de todos, por certo – sair desse imbróglio histórico.

Que se preserve incólume a democracia. Que evitemos, com bom senso, uma luta de classes, entre nós e eles e, sobretudo, enterrando uma frase recente e perturbadora do ex-presidente Lula: “o único capaz de incendiar este país sou eu”. O remédio alternativo, disponível no mercado, a ser eventualmente aplicado em situações de risco extremo como o de agora, pode vir a matar o paciente. Tempos difíceis à frente!

(Este texto está protegido pela Lei nº 9.610/98)