Vai passarSegunda feira, 30 de maio. Manhã gelada, chuvinha fina caindo, internet ligada no “El canal del relax” preparando o espírito para vivenciar mais uma semana de surpresas na política e outras tantas no cotidiano, por aqui e alhures.

Na política, seu alto escalão, agora definitivamente atrelado às notícias policiais, estarrece a todas (ou quase todas) classes sociais pela extensão da podridão instalada no meio daqueles que dirigiram ou dirigem o país, legislam – visando, em tese, dotar a sociedade de melhores condições de vida – e se aliam àqueles que julgam os destinos do país.   

A bela imagem, projetada pelo canal de áudio, identifica um oceano ao fundo, uma praia recebendo as ondas que se sucedem num vai-e-vem, como em um moto perpetuo, que se debruçam sobre pequenas rochas em pleno dia de sol com céu azul. Imagem que, em consonância com os acordes, enleva o espírito mantendo distantes o noticiário agressivo da televisão e a realidade que somos obrigados a enfrentar no dia-a-dia.    

Não resisto à tentação de lembrar, aqui e agora, uma estrofe da música “Vai Passar” de Chico Buarque de Holanda: “Num tempo/Página infeliz da nossa história/ Passagem desbotada na memória/Das nossas novas gerações/Dormia/A nossa pátria mãe tão distraída/Sem perceber que era subtraída/Em tenebrosas transações”. Vai passar, sim, o tempo de nossa história que há de se desbotar na memória, pois não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe. 

Desligo o som e a imagem na internet e arrisco uma olhada nas notícias: empreiteira responsável pelo projeto do velódromo da Rio-16 – ainda inacabado a 70 dias do início dos jogos – é substituída; em rebelião contra ministro recém empossado, funcionários da Controladoria-Geral da União (CGU) entregam cargos, lavam prédio e a sala do ministro; eurodeputados denunciam a “falta de legitimidade” democrática do governo Temer; pioneiro da TV (Nilton Travesso) sai de SP após roubo e é furtado nos EUA; delegada que investiga estupro coletivo no Rio diz que é crime. Chega!

Com o “El canal del relax” religado, abro um bom livro (Viva Mais e Melhor), vez por outra olhando pela janela a chuva caindo, agradecendo por mais um dia em que a esperança de um futuro melhor não morreu. Vai passar!

(Este texto está protegido pela Lei nº 9.610/98)