camara-dos-deputados-1934Acredite se quiser: a foto ao lado é de uma sessão plenária da Câmara dos Deputados, em 1934, no Rio de Janeiro, então capital da República. Comportados, todos sentados em seus lugares civilizadamente, os parlamentares conseguiram transformar, ao longo do tempo, o plenário do recinto em verdadeiro “clima de feira”. Ressalte-se que no Senado Federal a conduta não é diferente. Se o significado de decoro parlamentar “ recato no comportamento, no vestir, no agir, no falar (Houaiss) ” fosse ser aplicado ao pé da letra nas duas Casas, os membros do Congresso Nacional que o satisfizessem caberiam num Fusca.

A foto denuncia a presença de uma única mulher no plenário. A razão: apenas em 24 de fevereiro de 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, o Código Eleitoral Provisório assegurou o voto feminino no Brasil, após intensa campanha nacional pelo direito das mulheres ao voto. Mesmo assim, acredite: no início, o direito era reservado somente às mulheres casadas, autorizadas pelos maridos a votar e às viúvas e solteiras cuja renda era oriunda de seus próprios esforços…. Apenas em 1934 essas limitações caíram por terra. E caminhando no tempo, até 1964, votar era apenas um direito; somente a partir daquele ano passou, também, a ser obrigatório como sempre o foi para os eleitores homens.

Décadas foram deixadas para trás, as mulheres se emancipando, constituindo-se hoje em maioria da população, ocupando lugares de destaque em empresas e condução de negócios, integrando as três Forças Armadas – inclusive como oficiais aviadoras da Aeronáutica – ingressando na política. Nas eleições gerais de 2010, elas tornaram-se a maioria dos votantes quando 51,82 % dos 135 milhões de eleitores eram do sexo feminino.

Durante o processo de “impeachment” da ex-presidente Dilma V. Rousseff, pudemos assistir à participação – intensa – das senadoras contra e a favor, preparadas todas até a última lauda, cada lado defendendo com vigor suas convicções. Concordando ou não com as posições por elas defendidas, admiramos a paixão e entusiasmo com que defenderam seus pontos de vista.

O bom senso aconselha que – com o país atravessando um estado de instabilidade política, econômica e social – o debate continue sendo a única ferramenta democrática disponível. Qualquer outra poderá levar ao rompimento das instituições com desfechos imprevisíveis. Assim, o exemplo das senadoras deveria servir de estímulo a todas as mulheres da sociedade civil para, a exemplo das aguerridas no início do século passado, participarem – com os homens – da defesa do bem comum deste país. 

No momento, vão-se os anéis, mas ficam os dedos! Vamos preservá-los!

(Este texto está protegido pela Lei nº 9.610/98)