Uma das vantagens de “se avançar no tempo”, leia-se envelhecer, é que o-aqui-e-o-agoraos acontecimentos que os mais jovens só aprendem através dos livros, em salas de aula ou internet, já foram vividas – pelos menos jovens – em todos os momentos de suas trajetórias; se não presencialmente, através das mídias em tempo real.

Você pode estar se perguntando “E daí, qual a vantagem”? Após acompanhar a evolução de acontecimentos – ao vivo e a cores – guardá-las na memória, tomar consciência de que tudo é passageiro, transitório. Parodiando Lulu Santos, cantor e compositor: “Nada do que foi será / Do jeito que já foi um dia / Tudo passa / Tudo sempre passará”.

Mas não é apenas no campo dos episódios diários que o passar dos anos permite reconhecer que o “como era” e o “como está” são referências que se alargam com a vivência das estações.  Exemplo clássico é o olhar no espelho, diariamente, e não conseguir perceber as alterações causadas pelo tempo em nosso rosto ou corpo em apenas 24 horas. Sem mais, é quando o tempo avança que tomamos consciência das mutações; em tudo, seja lá em que âmbito for.

Os adeptos do Budismo conhecem e valorizam o conceito da impermanência. A maioria de nós, no entanto, só se dá conta de muitas das mudanças que ocorrem em nossas vidas apenas passado um tempo; eis que a percepção viciada não permite acompanhar o aqui e o agora conscientemente. Considerações que poderiam nos levar a refletir sobre ações e reações diárias, realinhando a importância dada a eventos e situações na certeza de que “tudo passa”, “tudo passará”.

Não me surpreenderia se você, neste momento, estiver pensando que o que acabou de ler é óbvio e que, nos tempos conturbados em que vivemos, tudo não passa de “filosofia de botequim”. Obviamente, o número de primaveras, verões, outonos e invernos vividos influenciam a forma de olhar e sentir. Quanto mais gasta a sola do sapato maior a percepção do andar.

Dizem que as coisas não acontecem da noite para o dia. Penso diferente. Nossa atenção, raramente voltada para o momento, fica focada no futuro: próximo ou distante. Talvez por isso, para muitos, ele nunca chegou. A ponderar.

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