Somos todos imunesEstamos a assistir, nestes últimos dois anos, a falência de um sistema que se exauriu por excesso de degeneração corruptiva.

Quero crer que não exista neste país qualquer cidadão de bem – independente de raça, credo ou orientação política – que não esteja perplexo diante da enorme bandalheira que assola todos os nichos da sociedade: governos, empresas, políticos, profissionais liberais, brancos, negros, pardos, hetero e homossexuais, pobres e ricos.

A qualificação “cidadão de bem”, no entanto, restringe o contingente dos perplexos, haja vista que a palavra corrupção abrange mais, muito mais, que tudo isto que estamos a vivenciar. Sob diversos mantos, a dita se apresenta como suborno, passando pela depravação de hábitos, desembocando naqueles aceitos como “normais” no seio de nossa sociedade.

Dificilmente encontrar-se-á alguém que ao longo da vida não tenha, ainda que por uma única vez, praticado a corrupção no sentido lato da palavra: ativa ou passivamente, ingenuamente ou não. No seu tempo de escola ou faculdade, por exemplo, você conhece alguém que nunca “colou” em uma prova ou copiou texto alheio dele fazendo uso como se de sua autoria fosse, fizesse o trabalho de alguém por quem teve amizade?

E o que se dizer de homens – em tese bem formados, como médicos – que não comparecem ao trabalho, mas aceitam ser remunerados como se presentes estivessem? Mais que corrupção, cometem crime, falsidade ideológica, como tantos outros profissionais de diversas áreas.

A área científica não está, também, isenta. São conhecidos inúmeros casos de trabalhos que foram escritos e apresentados com “enxertos” – oriundos de outros – sem o devido reconhecimento aos autores, na perseguição ao estrelato da vaidade pessoal.

A verdade é que a corrupção é como a gravidez: ou existe ou não existe. Não há meio termo nem brandura. A gravidez pode ser planejada, ou não; não raro, depende de um lance de oportunidade sem qualquer planejamento. Na ação corrupta, não é diferente. “ A ocasião não faz o ladrão? “ É o que nos lembra o dito popular.

Seria o ser humano corrupto por natureza, aquele que aguarda a oportunidade (até inconscientemente) para ceder e conceder diante de situações prementes?

A resposta não é simples nem fácil de ser respondida. São tantas as variáveis em jogo, as situações – inusitadas e imprevisíveis – que, honestamente, parece ser leviano afirmar-se “desta água não beberei”. Estaríamos todos imunes?

A corrupção parece possuir uma graduação que vai da rejeição absoluta à condescendência, como relatado acima. E aí?

A ponderar!