Em 7 de novembro, por pressão dos ministros do STF, o Senado Federal – tal qual Pilatos – lavou suas mãos em fim de mandato de seu presidente, Senador Eunício Oliveira (não reeleito em 2018), que fazendo uso de sua prerrogativa no cargo colocou em pauta para votação a proposta de aumento dos salários dos togados da Corte. O aumento foi aprovado. A proposta, que já havia passado pela Câmara dos Deputados “estava parada na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado havia dois anos”. Agora, ao apagar das luzes, seguirá para aprovação ou rejeição do presidente Michel Temer. Muito, muito estranho!

Calcula-se que o reajuste salarial de 16,38% dos 11 ministros e do titular da PGR (Procuradoria-Geral da República) causará um impacto nas contas públicas de R$ 4 bilhões a R$ 6 bilhões por ano graças ao chamado “efeito-cascata” que atinge todo o Judiciário do país onde esse aumento é automático. Como o déficit fiscal previsto para este ano já é da ordem de R$ 140 bilhões não é preciso ser economista para perceber que o “céu não é de brigadeiro”.

E como se vivesse em outro planeta, o ministro Ricardo Lewandowski, do STF, autor de um dos votos favoráveis à proposta, chegou a dizer que o “reajuste era modestíssimo”. No planeta em que habitam seus semelhantes, todos tem auxílio-moradia de R$ 4.3 mil, auxílio-alimentação, carros de luxo com motorista, passagens gratuitas para viagens no Brasil e exterior (acompanhados das esposas se a viagem for oficial), auxílio-saúde, 60 dias de férias. São benesses que fariam corar um juiz da Suprema Corte da Suécia. Mesmo assim, a “remuneração básica” dos magistrados da Corte deverá passar de R$ 33,7 mil para R$ 39,2 mil.

Mas no Brasil real – que tem hoje pouco mais de 19 milhões de aposentados pelo INSS, segundo a Secretaria da Previdência Social – de cada três aposentados dois recebem um salário mínimo. Se preferir, ministro Lewandowski, o equivalente a 22% de seu auxílio-moradia. Afinal, como deve saber, o salário mínimo no país real foi reajustado este ano em 1,81% passando de R$ 937 para R$ 954 no dia 1º de janeiro. E registre-se, o menor aumento em 24 anos!

Entendeu excelência, como funciona o nosso Brasil real?

Não surpreende, pois, que dados recentes da Comissão Europeia para a Eficiência da Justiça (Cepej) mostrem que o Brasil não só paga a seus juízes mais que os países europeus, e que o poder judiciário brasileiro é, também, mais caro que o desses países, considerando o tamanho das suas economias.

É o Brasil surreal!