Quer sorvete, meu filho?”, pergunta José Maria, de 65 anos, a todos os pacientes que entram e saem da Unidade de Pronto Atendimento da Lapa, na zona oeste de São Paulo. José trabalha como vendedor de sorvete no estacionamento do hospital há 30 anos. Parte do grupo de risco do covid-19, o vendedor afirma não ter medo de contrair a doença e que não lhe sobram muitas opções senão trabalhar todos os dias. “O que você quer que eu faça? Se não morrer desse vírus, morro de fome. Não posso parar de trabalhar” (UOL). Retrato do Brasil real!

E o surto que assola o mundo chegou por aqui com força total. Recomendações e orientações das autoridades sanitárias visando a proteção individual estão sendo desrespeitadas por parcela da população ainda inconsciente da real contaminação do coronavírus. Parcela que acreditando em atos, palavras irresponsáveis e exemplos levianos do presidente da República, diariamente – em oposição à realidade cientifica – e prestando um desserviço ao país, confunde a realidade que estamos vivendo. Pior, pode com suas tresloucadas atitudes levar à morte milhares de inocentes.

Na contramão, a quarentena imposta a todos nós vem revelando comportamentos de solidariedade em larga escala, retidos sob a capa da desconfiança e soberba, nivelando classes sociais e alargando a compreensão sobre o que é humanismo. Passada a tormenta o mundo não será mais o mesmo, nós não seremos mais os mesmos, peças desencaixadas encontrarão seu lugar e, quem sabe, o perfil do ser humano terá sido redesenhado.

Á razão e a lógica deverão se dar as mãos fazendo com que a espécie compreenda que as necessidades do homem na busca de sua sobrevivência independem de raça, cor, sexo, condição social.

Depois de tudo que estamos passando não caberá mais lugar para Josés desesperançados nem sobrevivência em condições de absoluta insalubridade neste país onde apenas 38% do esgoto é tratado, onde dos 5.570 municípios brasileiros 2.659 não monitoram a qualidade da água. Lembrando que a responsabilidade por nossa qualidade de vida não é apenas de governos. Se não atuam a contento, que façamos valer nossa cidadania mediante uniões apartidárias fazendo valer a voz além das urnas.

A lição do aprendizado a que estamos, todos, sendo submetidos terá sua prova final ao abrirmos as portas de nossas casas para sair, retornar à liberdade sem medo, revisarmos prioridades dentro de um novo contexto. Nada será como antes e, assim, deveremos agir com firmeza em prol das mudanças que irão se apresentar visando um equilíbrio mais justo no atendimento às necessidades dos menos aventurados.