Em tempos de quarentena, observando à distância o quadro desolador causado pelo covid-19 – jamais enfrentado pela humanidade, a se confirmarem as previsões de especialistas da área de saúde no mundo – tento me desconectar dos malabarismos políticos praticados por equilibristas sem rede de proteção.

Tento entender o que de mais profundo existe na alma humana para fazer desabrochar a volúpia pelo poder a qualquer preço. Preço, sim, eis que para atingi-lo (poder) torna-se obrigatório pagar “pedágio” sob as mais escamoteadas formas.

Mas o ônus para entrada no reino dos poderosos é menor que aquele a ser pago para nele permanecer. Falei em alma, e há os que a vendem por valores que não raro resvalam no que de mais valioso pode o ser humano possuir como patrimônio de sua essência: a dignidade.

Sua maior inimiga – a hipocrisia – sempre fantasiando a verdade e dissimulando princípios, está entronizada no seio do poder, incorporando ações travestidas de integridade.

Mas esse é o mundo real em que vivemos. Somos todos tentados, desde sempre, a barganhar com o poder maior para nele sermos inseridos e desfrutarmos das benesses que permitem alimentar nossos egos e anseios.

Seja nas relações sociais, no trabalho, na política, a busca pelo podium mais elevado transita pelos meandros tortuosos que nem todos conseguem resistir. Há um alto preço a ser pago, como já dito, tanto para ser inserido no meio como para dele se esquivar.

Não creio que se deva distorcer a razão do poder. Mas é difícil acreditar-se que o homem permanece íntegro em sua gaiola do poder se anseia nele permanecer ou, ascender, ainda, a um poleiro mais alto.

Nunca é demais lembrar-se que nessa escalada, sem fim, sempre haverá alguém mais forte e muitos ao redor – com intenções nem sempre transparentes – e que desfechos imprevisíveis podem estar à espreita na próxima curva da trajetória.

Na política, nos negócios, em sociedade, eles estão sempre lá, fazendo pose, causando inveja a muitos, se equilibrando na corda bamba na esperança que a corda não arrebente.

Afinal, nesse espetáculo a performance é sempre sem rede. E muitos caem!