A pandemia vem mexendo com todo mundo em maior ou menor grau. Tem-se tempo para pensar mais profundamente sobre os fatos da vida, sopesar verdades que se tornam menos absolutas.

Com algumas décadas de estrada, vejo um Brasil que aos trancos e barrancos vem progredindo nos últimos 100 anos – a passos de cágado é verdade – em setores como educação, direitos fundamentais, consolidação de instituições republicanas para o aperfeiçoamento da democracia.

Mas percebo alterações radicais no perfil do cidadão (cidadã) brasileiro. Será que o povo cordial, afável, alegre, amante do carnaval irreverente, apaixonado pelo futebol moleque, irmanado em momentos de tragédias como enchentes e deslizamentos de terra, dividindo o pouco que tem com quem nada tem, poderá estar mudando?

Seria consequência de radicalismos que vem – crescentemente – tomando conta de ações do governo federal via exemplos verbais e posturais confundindo a população, demonstrando uma insensibilidade insana em manifestações diárias? Seria porque aquele que deveria dar o exemplo como condutor dos destinos do país e sua gente se omite – deixando o destino da Saúde por conta de um general de brigada do Exército Brasileiro, da ativa, a recuperação da Economia por conta do “Guedes”, a defesa dos interesses nacionais junto ao Congresso Nacional delegada a terceiros?

E o brasileiro sofredor, permanecendo impotente no meio de uma guerra de versões sobre sua saúde dentro uma população que já perdeu mais de 100 mil de seus irmãos às sepulturas, inúmeras em covas rasas?

Não sei se nos encontramos em estado de letargia assistindo a tudo no melhor estilo “Nero na Roma antiga” ou à instituição lenta e gradual de uma nova República em perseguição, talvez, à ruptura – o que quer isso signifique – referida pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro, poucos meses atrás, quando indagado se ela poderia vir a existir. Como resposta: “se, não, quando”!

A beleza da democracia é que ela permite a qualquer cidadão pensar e agir com liberdade, de acordo com a sua consciência. Não em todos os lugares do planeta, é verdade, onde até os dias de hoje ainda impera uma espécie de Absolutismo – sistema político que defendia o poder absoluto do monarca sobre o Estado e que durou três séculos até o XIX.  

E em pleno século XXI a obstinação do homem pelo poder absoluto permanece viva. Lembrando-se o que Nicolau Maquiavel – historiador e filósofo político (1469-1527) defendeu, em sua obra o Príncipe, nos idos do século XVI: a cisão entre Moral e Política.

Qualquer semelhança com os dias de hoje é mera coincidência.